
Lilian Staveley — em solteira, Bowdoin — foi uma dama da alta sociedade inglesa da virada dos séculos XIX e XX. Sua vida exterior nada teve de extraordinário; mas, interiormente, ela viveu um percurso espiritual que a levou, da fé simples da infância, através do ateísmo da adolescência e de questionamentos angustiados durante a vida adulta, a vívidos encontros interiores com Jesus, e enfim, à realização definitiva da presença de Deus. Lilian manteve sua vida interior e experiências espirituais em completo segredo daqueles que a conheciam, mas revelou-os, sob o manto do anonimato, em três pequenos livros de grande espontaneidade e força: A Fonte de Ouro, O Romance da Alma e O Retorno da Alma Pródiga (este último ainda a ser publicado em tradução portuguesa).
Lilian nasceu em 1871, em Londres. Por parte do pai, americano, era aparentada à família Bowdoin de Boston, fundadores da renomada escola de artes Bowdoin College, existente até hoje; era também prima do célebre financista Temple Bowdoin, falecido em 1914 (de quem foi próxima o suficiente para ter sido incluída em seu testamento). Por parte de mãe, pertencia à família Costobadie, do sul da Inglaterra, que contava — como em geral as boas famílias inglesas da época — com pastores e militares dentre seus membros.
A vida de Lilian na infância foi uma de muito amor familiar, passatempos com os dois irmãos, viagens aos Estados Unidos e à Europa continental. Na adolescência, foi educada por uma preceptora particular, tendo aprendido línguas estrangeiras, ciências, arte e dança, ao mesmo tempo em que vivia muita solidão e devaneios. Veio então a estreia na sociedade, bailes e festas, pretendentes e pedidos de casamento. Já na casa dos vinte anos, Lilian viveu um grande amor desaprovado pela mãe, um noivado secreto, um longo período de saúde frágil, e enfim, o casamento, após seis anos de espera.
Esposa de William Cathcart Staveley, oficial do exército britânico — e membro de uma antiquíssima família com vários militares de renome —, Lilian acompanhou o marido pelos diversos lugares onde sua carreira o levou a morar, movendo-se sempre na boa sociedade. (De capitão, na época do casamento, Staveley mais tarde ascendeu até general de brigada, após notável atuação durante a Primeira Guerra Mundial.)
Sempre intensamente atraída pela beleza e pelo sagrado, mas sem encontrar a seu redor quem compartilhasse seus interesses, a reservadíssima Lilian viveu sozinha suas investigações, dúvidas, angústias e descobertas espirituais. Teve uma longa fase — duas décadas — em que sentia Deus a uma distância indizível, detrás de medonha e intransponível barreira; nos dez últimos desses anos, sentiu crescer em si um enorme temor a Deus. Decepcionada com as fugazes felicidades da vida exterior, acabou por desenvolver o hábito de “entreter-se mentalmente” com Jesus, o que, pouco a pouco, foi lhe trazendo grande paz. Afinal, nos domingos de Páscoa dos anos de 1912 e 1914, experimentou a presença real de Cristo junto a si: foram experiências tão transformadoras que ela as chama de “conversões”.
Sua terceira “conversão”, que aconteceu entre julho e setembro de 1916 — seguindo-se a dois anos de intenso e constante sofrimento — derrubou para sempre a barreira entre Lilian e a presença divina, podendo ser chamada propriamente de uma realização espiritual.
Os últimos doze anos de sua vida — ela deixou este mundo em 1928 —, Lilian passou-os progredindo no convívio com Deus, e ansiando por reunir-se definitivamente a Ele. Ao mesmo tempo, esparzia ao seu redor, por meio de obras de caridade e de seus escritos, algo da misericórdia que alcançara.
