“Vemos de todos os lados homens e mulheres que tentam preencher um vazio, uma necessidade que sentem dentro de si, por todos os tipos de meios exceto o único que poderá jamais ser um sucesso permanente. As mulheres se dedicam aos admiradores, aos maridos, aos filhos, às roupas, à vida social, aos cães; os homens, aos negócios, às ambições, às corridas de cavalos, às loucuras, à bebida, aos esportes, às artes. Há dentre essas pessoas alguma que é realmente feliz, que está realmente satisfeita em todo o seu ser? Não, e declinam para a velhice cercadas pelo pó da desilusão. Solitárias, e logo esquecidas pelas multidões ávidas de prazeres, tais pessoas se vão deste mundo, e o máximo que seus amigos têm a dizer é que elas se foram para um mundo melhor. Mas foram mesmo? Pois o mero fato de se desfazer da carne não nos traz nem um pouco para mais perto de Deus. Pelo contrário, desfazer-se da carne aumenta terrivelmente a dificuldade da alma para encontrar a Deus. Este mundo é exatamente o lugar em que conseguimos mais facilmente e rapidamente estabelecer uma comunicação com Deus. Achar que o mero ato de morrer melhora nosso caráter e nos leva para o paraíso é uma ilusão do Inimigo — é viver aqui que pode nos preparar e nos levar para o paraíso; e a distância que temos que viajar nem é grande, pois o paraíso é um estado de consciência, e entrando naquele estado de consciência nos unimos e relacionamos com quais graus do paraíso a carne consegue suportar, apesar de que esses graus estão infinitamente aquém do que a alma requer: daí o terrível desejo e anseio da alma para sair da carne. Se não encontramos Cristo enquanto estamos aqui, quando nos desprendemos da carne entramos num desnorteante vórtice de uma vida de terrível intensidade e grande solidão. Não estamos conscientes de nada além do Eu, somos atormentados pelo Eu com seus anseios para sempre insatisfeitos, e pela impossibilidade de alcançarmos qualquer outro Eu. Nessa intensidade de solidão em que se atormenta, a alma sente que rodopia, e daquilo que está fora desse Eu ela só conhece o som do rápido passar de coisas invisíveis, pois ela é cega. Sem a luz deste mundo, e sem a luz de Cristo. As alegrias do espaço não lhe estão abertas, apenas os sombrios e solitários terrores dele: ela está num estado de isolamento em relação a Deus incalculavelmente maior do que aqui neste mundo! O remédio para tudo isto encontra-se aqui; que ninguém pense que pode se dar ao luxo de esperar até depois de deixar este mundo para achar esse remédio, porque então sua oportunidade se foi, e quem saberá dizer quando ela voltará? O que pode ser mais belo, mais feliz, do que achar esse remédio, do que achar o único Ser que nos ama tanto quanto nós nos amamos! o brando, terno, indulgente Cristo, que é a perfeita suficiência; aquele todo-poderoso, sempre-doador Cristo que tem saudade de nós e anseia por nós — que loucura é que nos impede de buscá-l’O?
“Ao que parece, todos temos duas personalidades: somos a Madalena arrependida e a impenitente, e mudamos diariamente de uma para a outra. Mas o verdadeiro arrependimento não pode vir antes do amor: se achamos que nos arrependemos antes de amarmos, então não é mais do que o arrependimento da mente, que diz para si: “Tenho de estar em boas relações com Deus por causa de meu bem-estar futuro.” Onde o amor vem antes, temos o arrependimento do coração, que funciona assim em nós — amamos Jesus um pouquinho, amamo-l’O cada vez mais, e porque esse amor aumenta e chega a uma afeição verdadeira, de repente percebemos as ofensas repugnantes que cometemos contra esse doce amor, e no mesmo instante o coração se derrete e se parte, e ficamos abalados até as profundezas de nosso ser por termos jamais causado dor ao nosso Santo Amante. Este é o verdadeiro arrependimento — nada de receios preocupados com nosso próprio futuro, mas o amor sofrendo e agonizando por suas ofensas. Tal contrição penetra os mais profundos recessos do coração e da mente, e deixa neles uma marca profunda, indelével, mudando todos os objetivos de nossa vida, e é o começo de todas as alegrias em Cristo Jesus. Portanto, não visemos primeiro o arrependimento, mas visemos primeiro o amor. Com um pouquinho de amor a Jesus dado muitas vezes no dia enquanto andamos ou esperamos ou trabalhamos, mesmo se dito a princípio somente pelos lábios, com desejo de maior intensidade, depois de algum tempo veremos que o estamos dando de coração; então a Semente Divina começou a crescer, porque nós a regamos.”
In O Romance da Alma, de Lilian Staveley, Editora Stella Maris, 2025. Tradução de Beatriz Becker. Clique aqui para saber mais sobre o livro.
