Editora stella Maris

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Excerto de “A Alma do Índio”, de Ohyesa

(…) O nativo americano foi em geral desprezado por seus conquistadores brancos por sua pobreza e simplicidade. Eles se esquecem, talvez, de que sua religião proibia o acúmulo de riquezas e o desfrute do luxo. Para ele, assim como para outros homens determinados de todas as épocas e raças, de Diógenes aos frades de São Francisco, dos montanistas aos shakers, o amor às posses parecia uma armadilha, e os fardos de uma sociedade complexa se mostravam fonte de perigos e tentações desnecessários. Além disso, a regra de sua vida era compartilhar os frutos de sua habilidade e sucesso com seus irmãos menos afortunados. Dessa forma, ele mantinha seu espírito livre do obstáculo do orgulho, da cupidez ou da inveja e cumpria, como acreditava, o decreto divino — uma questão profundamente importante para ele.

Não foi, então, inteiramente por ignorância ou imprevidência que ele não fundou cidades permanentes e desenvolveu uma civilização material. Para esse sábio sem instrução formal, a concentração da população era a prolífica mãe de todos os males, tanto morais quanto físicos. Ele argumentava que a comida é boa, mas o excesso mata; que o amor é bom, mas a luxúria destrói; e não menos temida do que a pestilência que resulta das moradias lotadas e insalubres era a perda do poder espiritual, perda essa inseparável do contato muito próximo com os semelhantes. Todos que já viveram muito tempo ao ar livre sabem que há uma força magnética e nervosa que se acumula na solidão e que é rapidamente dissipada pela vida em uma multidão; e até mesmo seus inimigos reconheceram o fato de que, por um certo poder e autoconfiança inatos, totalmente independente das circunstâncias, o índio americano é insuperável entre os homens.

O homem pele-vermelha dividia a mente em duas partes: a mente espiritual e a mente física. A primeira é puro espírito, preocupada apenas com a essência das coisas, e era essa que ele procurava fortalecer por meio da oração espiritual, durante a qual o corpo é subjugado pelo jejum e por austeridades. Nesse tipo de oração, não havia pedido de favor ou ajuda. Todos os assuntos de interesse pessoal ou egoísta, como o sucesso na caça ou na guerra, o alívio de uma doença ou a preservação da vida de um ente querido, eram definitivamente relegados ao plano da mente inferior ou material, e todas as cerimônias, objetos com poderes sobrenaturais ou encantamentos destinados a garantir um benefício ou a afastar um perigo eram reconhecidos como emanados do eu físico.

Os ritos dessa adoração física, de novo, eram inteiramente simbólicos, e o índio não adorava mais o Sol do que o cristão adora a Cruz. O Sol e a Terra, por meio de uma parábola óbvia, contendo pouco mais de metáfora poética do que de verdade científica, eram, aos seus olhos, os pais de toda a vida orgânica. Do Sol, como pai universal, procede o princípio vivificador da natureza, e no ventre paciente e frutífero de nossa mãe, a Terra, estão escondidos embriões de plantas e homens. Assim, nossa reverência e amor por eles eram, na realidade, uma extensão imaginativa de nosso amor por nossos pais imediatos, e a esse sentimento de piedade filial juntava-se uma disposição de recorrer a eles, como a um pai, para obter as boas dádivas que desejássemos. Essa é a oração material, ou física.

Os elementos e as forças majestosas da natureza, o Relâmpago, o Vento, a Água, o Fogo e a Geada, eram considerados com admiração como poderes espirituais, mas sempre de caráter secundário e intermediário. Acreditávamos que o espírito permeia toda a Criação e que toda criatura possui uma alma em algum grau, embora não-necessariamente uma alma consciente de si mesma. A árvore, a cachoeira, o urso pardo — cada um é uma Força incorporada e, como tal, um objeto de reverência.

O índio adorava entrar em simpatia e comunhão espiritual com seus irmãos do reino animal, cujas almas inarticuladas tinham, para ele, algo da pureza sem pecado que atribuímos à criança inocente e irresponsável. Ele tinha fé em seus instintos, como em uma sabedoria misteriosa dada do alto; e, embora aceitasse humildemente o sacrifício supostamente voluntário dos corpos deles para preservar o seu, prestava homenagem a seus espíritos em orações e oferendas prescritas. (…)

*

In A Alma do Índio, de Charles Eastman, publicado por Editora Stella Maris, 2025. Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

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