Extrato de Introdução às Doutrinas Esotéricas do Islã, de Titus Burckhardt, capítulo “Da Realização Espiritual”:
(…) A assimilação das verdades doutrinais é indispensável; contudo, por si só ela não opera a transformação da alma, salvo em certos casos muito excepcionais, em que a alma é tão bem disposta à contemplação que um resumo doutrinal basta para a mergulhar nela, como no caso de uma solução supersaturada que, sofrendo um impulso mínimo, pode subitamente se transmutar em cristais. Em si, a inteligência doutrinal é puramente estática; ela pode liberar a alma de certas tensões, mas não pode realmente transformá-la sem o concurso da vontade, a qual, por sua vez, representa o elemento dinâmico da via. Ocorre mesmo, muito facilmente, que a intuição das verdades metafísicas, de início despertada pelo estudo da doutrina, esboroe-se pouco a pouco no espírito daquele que, crendo possuir essas verdades, só adere a elas mentalmente, como se a vontade não devesse ter nisso nenhum papel. Ora, a vontade deve tornar-se ‘pobre’ em relação a Deus, o que equivale a dizer que ela deve se conformar à virtude espiritual; esta representa uma espécie de concentração latente da alma, uma base sólida e natural da concentração diretamente operativa, cujo objetivo é atravessar o véu da consciência continuamente absorvida pela corrente das formas. ‘A virtude espiritual (al-ihsân) – disse o Profeta – é adorares a Deus como se tu O visses; e, se tu não O vês, Ele no entanto te vê.’
Conforme a natureza particular do ‘caminho’ – e ‘há tantos caminhos quanto almas humanas’ (1) –, a compreensão doutrinal exerce um papel de maior ou menor importância; ela não exige necessariamente um saber doutrinal muito extenso, pois é em profundidade, não na superfície, que ela deve se desenvolver. O que mais importa, para o aspirante à gnose, é estar consciente do sentido profundo dos ritos que ele realiza; ele deve apreender seus significados na medida de sua compreensão efetiva. Nesse domínio, o esforço puramente quantitativo e a vontade cega não podem chegar a nada, pois só leva ao conhecimento aquilo cuja natureza coincide com a do conhecimento.
A isso é preciso acrescentar que há sempre, nas práticas espirituais, elementos que não oferecem ponto de apoio à inteligência teórica; o fato de que a Verdade divina supere infinitamente suas prefigurações mentais deve necessariamente se marcar na economia da vida espiritual. Sob este aspecto, pode-se mesmo constatar uma certa inversão de relações: são os suportes cuja natureza é a menos discursiva e por consequência a mais ‘obscura’ do ponto de vista da razão que veiculam em geral as graças mais potentes; nos confins da contemplação pura, os símbolos tornam-se cada vez mais sintéticos e cada vez mais simples quanto à sua forma.
A Realidade divina é ao mesmo tempo Conhecimento e Ser; aquele que quer se aproximar d’Ela deve superar não somente a ignorância e a inconsciência, mas também a monopolização do espírito por um saber puramente teórico, e outras ‘irrealidades’ desse gênero. Por esta razão, muitos Súfis, e entre eles os mais eminentes representantes da Gnose, como Muhyi-d-dîn ibn ‘Arabî e ‘Umar al-Khayyam (2), afirmaram a primazia da virtude e da concentração em relação ao saber doutrinal; os verdadeiros intelectivos são os primeiros a reconhecer a relatividade de toda expressão teórica. O aspecto intelectual da Via comporta ao mesmo tempo o estudo da doutrina e sua superação pela intuição; o erro está sempre rigorosamente excluído, mas a mente, que veicula a verdade ao mesmo tempo em que a limita de certa maneira, deve também ser eliminada na contemplação unitiva.
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(1) Esse dito árabe não deve ser entendido ao pé da letra; ele significa simplesmente que a diversidade das naturezas engendra uma diversidade de métodos espirituais. Os tipos mentais deixam-se sempre reduzir a algumas categorias.
(2) Cf. A. Christensen, Un traité de Métaphysique de Omar Khayyam, em Le Monde Oriental, I, 1, 1906.

