por Frithjof Schuon
Entendemos pelo termo “psicologismo” a parcialidade de reduzir tudo a fatores psicológicos e pôr em questão não somente o que é intelectual ou espiritual – o primeiro termo referindo-se à verdade e o segundo à vida na verdade e por ela –, mas também o espírito humano enquanto tal, portanto sua capacidade de adequação e, evidentemente, sua ilimitação interna ou sua transcendência. Essa tendência redutora e propriamente subversiva grassa em todos os domínios que o cientismo pretende abraçar, mas sua expressão mais aguda é, sem contestação possível, a psicanálise; esta é ao mesmo tempo uma resultante e uma causa, como é sempre o caso nas ideologias profanas, tais como o materialismo e o evolucionismo, de que no fundo ela é uma ramificação lógica e fatal e um aliado natural.
A psicanálise merece duplamente a qualificação de impostura: em primeiro lugar, porque posa de descobridora de fatos que sempre foram conhecidos e não podiam não o ser e, em segundo lugar — e acima de tudo —, porque se atribui funções de fato espirituais e pretende fazer, na prática, o papel de religião. O que se chama “exame de consciência” ou, entre os muçulmanos, “ciência dos pensamentos” (ilm al-khawâtîr) ou, entre os hindus, “investigação” (vichara) – com nuanças um pouco diversas – não é senão uma análise objetiva das causas próximas e remotas de nossas maneiras de agir e reagir que se repetem automaticamente sem que lhes conheçamos os motivos reais ou sem que discirnamos o caráter real desses motivos. Acontece que o homem comete habitualmente, e cegamente, os mesmos erros nas mesmas circunstâncias, e ele o faz porque traz em si mesmo, em seu subconsciente, erros com base em amor-próprio ou em traumas; ora, para curar-se o homem deve detectar esses complexos e traduzi-los em fórmulas claras, ele deve, portanto, tornar-se consciente de erros subconscientes e neutralizá-los por meio de afirmações opostas; se o consegue, suas virtudes serão tanto mais lúcidas. É neste sentido que Lao-Tsé disse: “Sentir uma doença é não mais tê-la”; e a Lei de Manu: “Não há água lustral como o conhecimento”, ou seja, como a objetivação pela inteligência.
O que é novo na psicanálise e constitui sua sinistra originalidade é a parcialidade de reduzir todo reflexo ou toda disposição da alma a causas mesquinhas e excluir os fatores espirituais, donde a tendência bem notória a ver saúde no que é superficial e vulgar e neurose no que é nobre e profundo. Neste mundo, o homem não pode escapar às provas e às tentações, sua alma é portanto necessariamente marcada por certo tormento, a menos que seja de uma serenidade angélica — o que ocorre em meios muito religiosos — ou, ao contrário, de uma inércia a toda prova, o que ocorre por toda parte; mas a psicanálise, em vez de permitir-lhe tirar o melhor proveito de seu desequilíbrio natural e, em certo sentido, providencial — e o melhor proveito é o que concorre para os nossos fins últimos —, tende, ao contrário, a reduzir o homem a um equilíbrio amorfo, um pouco como se se quisesse poupar um pássaro das angústias da aprendizagem cortando-lhe as asas. Analogicamente falando, quando um homem se inquieta com uma inundação e busca um meio de lhe escapar, a psicanálise dissolverá a inquietação e deixará o paciente se afogar; ou, então, em vez de abolir o pecado, ela abolirá a má consciência, o que permite ir serenamente para o inferno. Isto não quer dizer que não acontece nunca que um psicanalista descubra e dissolva um complexo perigoso sem com isso arruinar o paciente; mas é do princípio que se trata aqui, cujos perigos e erros são infinitamente mais importantes que as vantagens aleatórias e as verdades fragmentárias.
De tudo isso resulta que, para a média dos psicanalistas, um complexo é mau porque é um complexo; não se quer entender que existem complexos que são honrosos para o homem ou que lhe são naturais em virtude de sua deiformidade, e que, por consequência, há desequilíbrios necessários, que devem encontrar sua solução acima de nós mesmos, não abaixo. Outro erro, que no fundo é o mesmo: admite-se que um equilíbrio é um bem porque é um equilíbrio, como se não houvesse equilíbrios feitos de insensibilidade e de perversão. Nosso estado humano mesmo é um desequilíbrio, pois estamos existencialmente suspensos entre as contingências terrestres e o apelo inato do Absoluto; a questão não se limita a se desembaraçar de um nó psíquico, trata-se também de saber como e por que desembaraçar-se dele. Nós não somos substâncias amorfas, mas movimentos em princípio ascendentes; nossa felicidade deve ser proporcional à nossa natureza total, sob pena de nos reduzir à animalidade, pois uma felicidade sem Deus é precisamente o que o homem não aguenta sem se perder. E é por isso que um médico da alma deve ser um pontifex, portanto um mestre espiritual no sentido próprio e tradicional do termo; um profissional profano não tem nem a capacidade nem, por consequência, o direito de tocar a alma além das dificuldades elementares que o simples bom senso basta para resolver.
O crime espiritual e social da psicanálise é, portanto, o de usurpar o lugar da religião ou da sabedoria, que é a de Deus, e de eliminar de seus procedimentos toda consideração de nossos fins últimos; é como se, não podendo combater Deus, se se voltasse contra a alma humana, que lhe pertence e lhe está destinada, aviltando assim, na falta do Protótipo, a imagem divina. Como toda solução que se esquiva do sobrenatural, a psicanálise substitui à sua maneira o que ela abole: o vazio que ela produz com suas destruições voluntárias ou involuntárias dilata-a e a condena a um falso infinito ou à função de uma pseudorreligião.
A fim de poder germinar, a psicanálise tinha necessidade de um terreno apropriado, não só do ponto de vista das ideias, mas também do dos fenômenos psicológicos: queremos dizer que o europeu, que sempre foi um cerebral, tornou-se muito mais cerebral há cerca de um ou dois séculos; ora, essa concentração de toda a inteligência na cabeça tem algo de excessivo e de anormal, e as hipertrofias que dela resultam não constituem uma superioridade, malgrado sua eficácia em certos domínios.
Normalmente, a inteligência deve estar sediada não só na mente, mas também no coração, e ela deve ainda distribuir-se por todo o corpo, como acontece sobretudo no caso dos homens ditos “primitivos”, mas incontestavelmente superiores, sob certos aspectos, aos ultracivilizados; seja como for, o ponto a que queremos chegar é que a psicanálise é em grande parte função de um desequilíbrio mental mais ou menos generalizado num mundo onde a máquina dita ao homem seu ritmo de vida e mesmo, o que é mais grave, sua alma e seu espírito.
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A psicanálise fez sua entrada mais ou menos oficial no mundo dos “crentes”, o que é bem um sinal dos tempos; daí resulta a introdução, na dita “espiritualidade”, de um método que é totalmente contrário à dignidade humana e que está também em estranha contradição com a pretensão de ser “adulto” e “emancipado”. As pessoas brincam de semideuses e ao mesmo tempo tratam-se como irresponsáveis; por causa da menor depressão, causada seja por uma ambiência muito trepidante, seja por um gênero de vida por demais contrário ao bom-senso, corre-se para o psiquiatra, cujo trabalho consistirá em insuflar-vos algum falso otimismo ou aconselhar-vos algum pecado liberador. Parece que não se supõe nem por um instante que só há um único equilíbrio, aquele que nos fixa em nosso centro real e em Deus.
Um dos efeitos mais odiosos da adoção do psicanalismo pelos “crentes” é o descrédito do culto da Santa Virgem; esse culto não pode senão incomodar uma mentalidade bárbara que se quer “adulta” a qualquer preço e que já não acredita senão no trivial. À censura de “ginecolatria” ou de “complexo de Édipo”, responderemos que, como todos os outros argumentos da psicanálise, este passa ao largo do problema, pois a questão que se coloca é a de saber não qual pode ser o condicionamento psicológico de uma atitude, mas, muito pelo contrário, qual seu resultado. Quando se nos diz, por exemplo, que alguém escolheu a metafísica como uma “fuga” ou “sublimação” e por causa de um “complexo de inferioridade” ou de um “recalque”, isto não tem nenhuma importância, pois bendito seja o “complexo” que é a causa ocasional da aceitação do verdadeiro e do bem! Mas há também o seguinte: os modernos, cansados como estão das doçuras artificiais que sua cultura e sua religiosidade carregam desde a época barroca, transferem – segundo seu hábito – sua aversão para a noção mesma de doçura e assim se fecham seja a toda uma dimensão espiritual, se são “crentes”, seja a toda humanidade verdadeira, como o mostra certo culto infantil da grosseria e do ruído.
De resto, não basta perguntar o que vale uma devoção em certas consciências, é preciso perguntar também por aquilo que a substitui; pois o lugar de uma devoção suprimida não permanece nunca vazio.
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“Conhece-te a ti mesmo” (Helenismo), diz a Tradição, e também: “Quem conhece sua alma, conhece seu Senhor” (Islã). O modelo tradicional do que a psicanálise devia ser, ou tem a pretensão de ser, é a ciência das virtudes e dos vícios; a virtude fundamental é a sinceridade, que coincide com a humildade; aquele que lança na alma a sonda da verdade e da retidão chega a detectar os nós mais sutis do inconsciente. É inútil querer curar a alma sem curar o espírito: o que importa, portanto, em primeiro lugar, é desembaraçar a inteligência dos erros que a pervertem e criar assim uma base com vista ao retorno da alma ao equilíbrio; não a não importa qual equilíbrio, mas àquele cujo princípio ela traz em si mesma.
Para São Bernardo, a alma passional é “coisa desprezível”, e Mestre Eckhart nos prescreve “odiá-la”. Isto significa que o grande remédio para todas as nossas misérias interiores é a objetividade para com nós mesmos; ora, a fonte, ou o ponto de partida, desta objetividade situa-se além de nós mesmos, em Deus. O que está em Deus reflete-se ao mesmo tempo em nosso próprio centro transpessoal, que é o Intelecto; o que quer dizer que a verdade que nos salva faz parte de nossa substância mais íntima e mais real. O erro ou a impiedade é a recusa de ser o que se é.
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Capítulo de Resumo de Metafísica Integral, de Frithjof Schuon, publicado pela Editora Stella Maris, 2025.
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