Editora stella Maris

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Excerto de “As Pérolas do Peregrino”, de Schuon

A principal dificuldade na vida espiritual é manter uma posição simples, qualitativa, celeste, numa ambiência complexa, quantitativa, terrestre.

Há um homem exterior e um homem interior; o primeiro vive no mundo e sofre-lhe a influência, enquanto o segundo olha para Deus e vive da oração. Ora, é preciso que o primeiro não se afirme em detrimento do segundo; é o inverso que deve ocorrer. Em vez de inflar o homem exterior e deixar morrer o homem interior, é preciso deixar o homem interior se desenvolver e confiar as preocupações do exterior a Deus.

Quando nos retiramos para o interior, este, por compensação, se manifestará para nós no exterior. A nobreza da alma é ter o senso dos arquétipos.

O mundo nos dispersa e o ego nos comprime; Deus nos recolhe e nos dilata, Ele nos apazigua e nos liberta.

Por mais que a inteligência afirme as verdades metafísicas e escatológicas, a imaginação – ou o subconsciente – continua a crer firmemente no mundo, não em Deus nem no além-mundo; todo homem é a priori hipócrita. A via é, precisamente, a passagem da hipocrisia natural à sinceridade espiritual.

É tão-somente pela interioridade deificante, seja qual for seu preço, que o homem é perfeitamente conforme a sua natureza.

O valor do homem está em sua consciência do Absoluto e, por consequência, na integralidade e na profundidade dessa consciência; tendo-a perdido de vista ao mergulhar no mundo dos fenômenos considerados em si mesmos, o homem tem necessidade, para dela se lembrar, da Mensagem celeste. No fundo, essa Mensagem vem “dele próprio”; não de seu eu empírico, está claro, mas de sua ipseidade imanente, que é a de Deus e sem a qual não haveria eu humano, nem angélico, nem outro; a credibilidade da Mensagem resulta do fato de que ela é o que nós somos, ao mesmo tempo em nós mesmos e além de nós mesmos. No fundo da transcendência está a imanência, e no fundo da imanência, a transcendência.

Para ser feliz, o homem deve ter um centro; ora, esse centro é antes de tudo a certeza do Um. A maior calamidade é a perda do centro e o abandono da alma aos caprichos da periferia. Ser homem, é estar no centro; é ser centro.

*

In As Pérolas do Peregrino, de Frithjof Schuon, publicado pela Editora Stella Maris, 2025. Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

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