O primeiro dentre os índios norte-americanos a adquirir fama como escritor, Charles Eastman traça neste livro um retrato marcante da vida dos povos originários das planícies da América do Norte antes de sua aculturação.
Tendo nascido e vivido até os quinze anos entre os sioux, para depois ir à escola e à faculdade e fazer carreira profissional entre os brancos, Eastman — cujo nome índio era Ohyesa — estava numa posição ideal para apresentar o mundo dos peles-vermelhas aos brancos de forma autêntica e vívida. Aqui, ao longo de capítulos centrados em temas específicos — a religião, a família, as cerimônias públicas, a ética —, ele vai mostrando ao leitor, de forma acessível e muitas vezes poética, o imaginário e o quotidiano de seu povo.
A experiência de Eastman desses dois mundos em colisão também o qualificou para comparações pungentes entre ambos. Por diversas vezes neste livro, ele põe lado a lado os “selvagens” e os “civilizados”, numa crítica sem ódio ou agressividade, mas justa e sentida. Enquanto reconhece que seus irmãos de raça não eram seres perfeitos, e que também havia entre os brancos gente nobre e virtuosa, Ohyesa ressalta a diferença entre os princípios que, na prática, determinam cada mundo: a religiosidade insincera, o utilitarismo e a ganância, versus a espiritualidade profunda que permeia tudo, a coexistência com a natureza, e o desapego dos bens materiais.
Em resumo, este é um livro curto e de leitura fácil, mas profundo e enriquecedor, sobre um povo e um modo de vida que hoje mal podemos imaginar: aquele em que se vivia na prática a vocação inescapável do ser humano — ser o regente do Criador na terra.

