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Titus Burckhardt

[NB: Ainda não publicamos nenhum livro de Titus Burckhardt, mas esperamos fazê-lo no primeiro semestre de 2026.]

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Titus Burckhardt, suíço alemão, nasceu em Florença em 1908 e faleceu em Lausanne em 1984. Burckhardt devotou toda a sua vida ao estudo e à exposição dos diferentes aspectos da Sabedoria e da Tradição.

Embora tenha nascido em Florença, Burckhardt era o herdeiro de uma família patrícia da Basiléia: era sobrinho-neto do famoso historiador da arte Jacob Burckhardt e filho do escultor Carl Burckhardt. Um ano mais novo que Frithjof Schuon, Titus compartilhou com este seus primeiros tempos de escola na Basileia, por volta da Primeira Guerra Mundial. Aquele foi o começo de uma amizade íntima e de um relacionamento profundamente harmonioso, que duraria toda uma vida.

A principal exposição metafísica de Burckhardt, complementando com beleza a obra de Schuon, foi Introduction aux Doctrines Ésotériques de l’Islam (Introdução às Doutrinas Esotéricas do Islã). Esta é uma obra-prima intelectual que analisa de forma abrangente e com precisão a natureza do esoterismo como tal. Ela começa tornando claro, com uma série de definições lúcidas e econômicas, o que o esoterismo é e o que ele não é, depois examina as bases doutrinais do esoterismo islâmico ou Sufismo, e termina com uma descrição inspirada da “alquimia espiritual” ou caminho contemplativo que leva à realização espiritual. Este livro estabeleceu claramente Burckhardt como o principal expositor, depois de Schuon, da doutrina intelectual e do método espiritual.

Burckhardt devotou uma grande parte de seus escritos à cosmologia tradicional, que ele via em certo sentido como a “serva da metafísica”. Ele apresentou formalmente os princípios nela envolvidos num artigo magistral e conciso, “A Perspectiva Cosmológica”, publicado pela primeira vez em francês em 1948. Muito depois – numa série de artigos publicados tanto em francês como em alemão em 1964, – ele cobriu o campo cosmológico de forma realmente completa, e também fez muitas e detalhadas referências aos principais ramos da ciência moderna.

Não dissociado de seu interesse pela cosmologia, Burckhardt tinha uma afinidade particular com a arte e o artesanato tradicionais e tinha conhecimento e experiência na avaliação da arquitetura, da iconografia e de outras artes e ofícios tradicionais. Em particular, ele dedicou-se a compreender e explicar como tais artes e ofícios tinham podido – e podem – ser proveitosas espiritualmente, tanto como atividades cheias de significado que, em virtude de seu simbolismo inerente, comportam uma mensagem doutrinal, como enquanto suportes de realização espiritual e meios de graça. Ars sine scientia nihil. Aqui, é claro, trata-se da scientia sacra e da ars sacra, que são os dois lados de uma mesma moeda. Este é o domínio das iniciações de ofícios das várias civilizações tradicionais, e especialmente de coisas tais como, na Idade Média, a maçonaria e a alquimia operativas. De fato, a principal obra de Burckhardt no campo da cosmologia foi seu livro Alchemie, Sinn- und Weltbild (Alquimia: significado e imagem do mundo), uma apresentação brilhante da alquimia como expressão de uma psicologia espiritual e de um suporte intelectual e simbólico para a contemplação e a realização.

O principal trabalho de Burckhardt no campo da arte foi Principes et Méthodes de l’Art Sacré (Princípios e Métodos da Arte Sacra), que contém vários capítulos maravilhosos sobre a metafísica e a estética do Hinduísmo, do Budismo, do Taoísmo, do Cristianismo e do Islã, e termina com uma útil e prática visão da situação contemporânea intitulada “A decadência e a renovação da arte cristã”.

Durante as décadas de 1950 e 1960, Burckhardt foi o diretor artístico da editora Urs Graf, de Lausanne e Olten. Sua principal atividade durante aqueles anos foi a produção e publicação de toda uma série de fac-símiles de belos manuscritos medievais decorados com iluminuras, especialmente manuscritos celtas dos Evangelhos, como o Book of Kells e o Book of Durrow (de Trinity College, Dublin) e o Book of Lindisfarne (da British Library, Londres). Este foi um trabalho pioneiro da mais elevada qualidade e um feito editorial que imediatamente teve excelente acolhida tanto dos especialistas como do público em geral.

Foi durante aqueles anos na editora Urs Graf que Burckhardt coordenou uma interessante série de publicações com o título geral de Stätten des Geistes (“Lugares do Espírito”). Tratava-se de estudos histórico-espirituais de certas manifestações de civilização sagrada, e cobriam temas como o Monte Athos, a Irlanda céltica, o Sinai, Constantinopla e outros lugares. O próprio Burckhardt contribuiu para a coleção com os livros Siena, Cidade da Virgem, Chartres e o Nascimento da Catedral, e Fez, Cidade do Islã. Siena é um relato iluminador do apogeu e queda de uma cidade cristã que, arquiteturalmente falando, continua até hoje a ser como que uma joia gótica. Mais interessante de tudo, no entanto, é a história de seus santos. Burckhardt devota muitas de suas páginas a Santa Catarina de Siena (que nunca hesitou em repreender um papa, quando sentiu que isso era necessário) e a São Bernardino de Siena (que foi um dos maiores praticantes – e pregadores – católicos do poder salvífico da invocação do Santo Nome). Chartres é a história do “idealismo” (no melhor sentido do termo) que está por trás da concepção e da realização prática das catedrais medievais – os monumentos ainda inteiros de uma idade de fé. Em Chartres, Burckhardt expõe os conteúdos intelectuais e espirituais dos diferentes estilos arquiteturais – não apenas distinguindo entre do Gótico e o Romanesco, mas mesmo entre as diferentes variantes do Romanesco. É um exemplo ofuscante do que significa o discernimento intelectual.

Um das várias obras-primas de Burckhardt é sem dúvida Fez, Cidade do Islã. Quando jovem, na década de 1930, ele passou alguns anos no Marrocos, onde criou uma forte amizade com vários notáveis representantes da até então intacta herança espiritual do Magrebe. Este foi claramente um período formativo da vida de Burckhardt, e muito da sua mensagem e do seu estilo subsequentes se origina nestes primeiros anos. Já naquela época ele tinha dedicado muito de seu tempo a escrever (coisas não imediatamente publicadas) e foi só no final da década de 1950 que esses escritos e essas experiências amadureceram para formar um livro definitivo e magistral. Em Fez, Cidade do Islã, Burckhardt conta a história de um povo e sua religião – uma história que foi frequentemente violenta, frequentemente heroica, e por vezes santa. Por toda ela corre o fio da piedade e da civilização islâmica. Estas duas Burckhardt expõe com mão segura e esclarecedora, contando muitos dos ensinamentos, parábolas e milagres dos santos de muitos séculos, e demonstrando não apenas as artes e ofícios da civilização islâmica, mas também suas ciências “aristotélicas” e suas habilidades administrativas. Há de fato muito a aprender sobre o governo dos homens e das sociedades com a apresentação penetrante de Burckhardt dos princípios por trás das vicissitudes dinásticas e tribais – com suas falhas e seus sucessos.
De espírito aparentado a Fez é outro dos trabalhos maduros de Burckhardt, A Cultura Moura na Espanha. Como sempre, trata-se de um livro de verdade e de beleza, de ciência e de arte, de piedade e de cultura tradicional. Mas nesta obra, talvez mais que em todas as outras, trata-se do romance, da cavalaria e da poesia da vida pré-moderna.

Durante seus anos de juventude no Marrocos, Burckhardt mergulhou na língua árabe e assimilou os clássicos do Sufismo em sua forma original. Anos depois, ele compartilharia esses tesouros com o público leitor por meio de traduções de Ibn Arabî e Jîlî. Um de seus mais importantes trabalhos de tradução foi das cartas espirituais do renomado cheikh marroquino do século dezoito Mulay al-‘Arabî ad-Darqâwî. Estas cartas constituem um clássico espiritual e são um precioso documento de aconselhamento espiritual prático.

O último grande trabalho de Burckhardt foi seu amplamente festejado e impressionante Arte do Islã. Aqui, os princípios intelectuais e o papel espiritual da criatividade artística em suas formas islâmicas são ricamente e generosamente mostrados a nós. Com esse nobre volume, o corpus literário ímpar de Titus Burckhardt chega a seu fim.

[Texto original inglês de William Stoddart, adaptado para este website]